Skip to main content.

Arquivos

Este é o arquivo para January 2006

19. Termina a prospecção geofísica em Livingston

Com o aproximar do final da estadia em Livingston, temos que nos apressar a terminar o trabalho de campo. Estamos exaustos. Às 8h30 estávamos a subir para a moreia do refúgio das motos, mais uma vez carregados com equipamento, para fazer um perfil de resistividade. Já não podemos ver eléctrodos à frente. Em cada perfil que pode até cerca de 130 m, espetamos no solo até 30 eléctrodos, e percorremos o perfil para trás e para a frente, fazendo várias combinações possíveis com os cabos eléctricos. A grande vantagem destes perfis é que nos permitem conhecer as características do substrato, se está ou não congelado, e em alguns casos, permitem identificar a presença de gelo intersticial.

Os resultados são sempre de extrema importância para o conhecimento das características e distribuição do permafrost na ilha, e a cada dia que passa, vamos juntando mais peças no puzzle, que também se vai tornando mais complicado. É como se começássemos a campanha com um puzzle de 30 peças, e à medida que as fossemos juntando, as restantes se dividissem em peças mais pequenas. Na verdade, todo o processo dá-nos um gozo fantástico, mas ilustra bem o tempo imenso e o trabalho necessário para levar a bom termo um projecto científico. Cada resposta, leva a uma nova pergunta.

À hora de almoço descemos à base, e mais uma vez comemos uma excelente refeição. À tarde, depois de algum tempo a organizar dados e a escrever e-mails, voltámos a carregar as mochilas com o equipamento de refracção sísmica e fomos para uma moreia onde tínhamos estado a trabalhar ontem de manhã. Com mais este perfil, demos por encerrada a prospecção geofísica em Livingston. Finalmente! Naturalmente, temos já vários locais onde será necessário fazer novos perfis em campanhas futuras.

Um aspecto muito interessante deste tipo de investigação é que o permafrost antárctico é um campo quase virgem e por explorar. Além disso, o estudo do permafrost, é cada vez mais reconhecido como fundamental para melhor compreender as variações climáticas na Terra, como tem sido demonstrado por vários grupos de trabalho formados em associações científicas internacionais, como o SCAR (Scientific Committee for Antarctic Research) ou a IPA (International Permafrost Association), bem como por vários relatórios científicos publicados por diversas organizações internacionais (por ex. a Organização Meteorológica Mundial).

31/01/2006

===



Juanjo a montar a vara de monitorização da espessura da neve no Monte Reina Sofia, Ilha Livingston

18. Caleta Argentina

Dia longo de trabalho no campo. Aproxima-se o final da estadia em Livingston e o tempo escasseia. A cada novo perfil geoeléctrico, novas questões surgem, e por isso vamos mudando de planos da manhã para a tarde. O dia iniciou-se com queda de neve, mas a partir da tarde ficou um sol fantástico. Um luxo, estar a fazer trabalho de campo com vista para uma baía cheia de icebergs, um enorme glaciar em último plano e uma praia com pinguins! De manhã, quando estávamos a fazer um perfil geoeléctrico numa moreia próximo da base, avistámos uma baleia junto à praia. Corremos para as máquinas fotográficas, mas quando nos preparávamos para a fotografar, mergulhou.

Terminámos o perfil de 130m à hora do almoço. Logo depois, o Christian esteve a processar os dados, e os resultados surpreenderam-nos; dentro da moreia encontrámos valores muito elevados de resistividade. Para tentar validar os registos, seria necessário fazer uma sondagem numa moreia com núcleo de gelo. Felizmente, durante o levantamento geomorfológico de pormenor de 2000, observámos na Caleta Argentina uma moreia com essas características. Via-se bem, porque tinha a vertente interna cheia de deslizamentos que expunham o gelo do interior. Assim, depois do almoço, com as mochilas carregadas com o equipamento, dirigimo-nos para a Caleta argentina. 45 minutos a pé, e 3 horas de trabalho, para cima e para baixo na moreia. Mais uma que está despachada. Estamos estafados. Agora falta-nos analisar os dados, para perceber o que se passa na moreia que estudámos de manhã, e tentar colmatar as várias interrogações que temos quanto à distribuição do permafrost na ilha.

30/01/2006


===



Pinguim Papua

17. Neve em Lisboa, Sol na Antárctida

Hoje quando acordámos estava a nevar…em Lisboa! Mais de 30 anos à espera de ver nevar em Lisboa e agora é que foi… Lembro-me de, em miúdo, quando estava frio em Lisboa, ficar ansiosamente à espera que nevasse; a olhar para o termómetro e a ouvir as previsões meteorológicas, mas nada. Teve que ser hoje; agora que estou na Antárctida, com um dia de sol bestial. Mas fiquei muito contente pelo meu filho e por todos os que viveram esse momento raro. Será que foram os benfiquistas que o prepararam, para abafar as análises e críticas ao jogo de ontem?

Pois é, por cá esteve um dia de sol incrível. De manhã, numa comunicação por rádio entre o chefe de base e uma equipa de cientistas que está na Península de Byers a acampar, consegui ouvir através do rádio “sim, aqui nas Caraíbas estamos todos bem!”.

Com sol, tudo muda! As temperaturas máximas foram de cerca de 6ºC e não houve vento. Esteve um dia incrível. De manhã estivemos a trabalhar na base, e à tarde fomos de Zodiac visitar a Base Búlgara de St. Kliment Ohridski. Como sempre, os búlgaros receberam-nos calorosamente e com muito boa disposição. Entre quem trabalha na Antárctida, existe um forte companheirismo. Visitámos a base, o glaciar e o primeiro módulo da base, construído nos anos 80, e que é do tamanho de um contentor, reflectindo ainda o verdadeiro espírito de explorador antárctico. Fiquei surpreendido ao ver que muitos dos membros da expedição búlgara se lembravam de mim, pois tinha estado na base, numa festa, há já 6 anos. Eu lembrava-me deles, é claro; vi por várias vezes as imagens em video da festa que fizemos em 2000, e claro, uma festa dessas não se esquece.

Reunimo-nos em torno de uma mesa com aperitivos e rakia, a aguardente tradicional búlgara. Tocou-se viola e cantou-se. Ao final da tarde, o mar junto à praia ficou cheio de brash; pedaços de gelo glaciário que se libertam ao final do dia das frentes dos glaciares de maré. Logo um dos búlgaros saiu da base de balde na mão, para recolher um pedaço de gelo de meio metro. Gelo antárctico com milhares de anos de idade para o Whisky. Infelizmente, a quantidade de brash junto à costa avolumou-se de tal forma, que tivemos partir mais cedo do que o previsto. Não aproveitei mais que um pequeno pedaço de gelo antárctico, e abandonei-o a derreter no fundo do copo.

No momento da partida, fomos acompanhados pelos membros da campanha antárctica búlgara até às Zodiac. Sempre de viola em punho e a cantar. A viagem de volta foi muito bonita, atravessando um mar de brash, e com um pôr-do-sol fantástico. Mais uma vez a visita à base St. Kliment Ohridski vai-me ficar na memória.

Mas estas visitas são mais do que festas e momentos de lazer. Aproveitei para falar com uma colega geomorfóloga da Universidade de Sófia sobre os trabalhos que está a fazer na ilha. Vimos os dados e amostras que está a analisar, e falámos sobre possíveis colaborações futuras. Assim, se vão fazendo contactos e trocando experiências de trabalho que nos enriquecem a todos. Frequentemente, poucos minutos de conversa produzem maiores avanços no conhecimento, do que meses de pesquisa bibliográfica.

29/01/2006

===



Base Búlgara St. Kliment Ohridski na Ilha Livingston

16. Passeio pela praia

O dia começou com a visita de uma baleia que percorreu a costa em frente à base, a cerca de 100 m da praia. Foi uma boa forma de iniciar um sábado que pretendíamos mais relaxado. Aproveitámos a manhã para fazer um passeio ao longo da praia até à Baía de Johnsons e fazer fotografias.

É junto ao mar que se concentra a maior biodiversidade das Antárctida Marítima. Quando trabalhamos nas montanhas, mesmo estando só algumas centenas de metros do mar, apenas somos visitados por skuas. São aves semelhantes a gaivotas, mas bastante maiores, de cor castanha, e de espírito curioso, que se divertem a arrancar os fios eléctricos e as fitas métricas das nossas experiências. Quando nos aproximamos dos seus ninhos, que se encontram escondidos no meio de blocos e líquenes, fazem-nos voos rasantes, guinchando e bombardeando-nos com dejectos. Felizmente têm pouca pontaria e ainda não houve baixas.

Mas junto ao mar, há quase sempre surpresas: pinguins chinstrap e papuas, focas de weddell, caranguejeiras ou elefante, lobos-marinhos, ou mesmo baleias, e algumas espécies de aves, que não sei identificar. Os passeios na praia são, por isso, sempre animados e fazem as delícias de quem gosta de fotografia. Os icebergs vão e vêm ao sabor dos ventos e correntes e, por isso, o mar muda a cada dia que passa. Apesar de estarmos circunscritos a uma pequena península com poucos quilómetros quadrados, a paisagem vai mudando continuamente, e isso contribui para que a Antárctida Marítima seja uma região tão especial.

No passeio pela praia, voltámo-nos a cruzar com os dois geólogos búlgaros que encontrámos há uns dias. Um deles estava maravilhado com duas falhas que tinha acabado de descobrir, e que tinham sido o culminar de uma campanha de quase 1 mês de cartografia geológica. Finalmente, algo verdadeiramente interessante, comentou com um brilho especial nos olhos. Estivemos alguns minutos a discutir o afloramento geológico, antes de o deixarmos a tomar notas no seu bloco. Na Baía Johnsons divertimo-nos a fotografar 3 focas de Weddell que estavam deitadas na praia de calhaus, a dormir preguiçosamente de barriga para o ar. Praticamente não nos ligaram, mesmo encontrando-nos a apenas cerca de 10 m delas.

Voltámos à base para almoçar. Á tarde, montámos novo perfil geoeléctrico numa moreia junto à praia. As moreias são acumulações de blocos, calhaus, areias e outros sedimentos finos, que são transportados e depositados por um glaciar, e que apresentam formas variadas. Mas, frequentemente são lineares, formando cristas com alguns metros de altura em relação ao terreno circundante. O estudo da localização das moreias e da sua idade, permite, entre outras coisas, reconstituir as antigas posições dos glaciares, e assim compreender melhor as variações climáticas e seus efeitos na paisagem. Este contacto com paisagens glaciadas, serve-nos também para os estudos que estamos a efectuar na Serra da Estrela, onde nos interessa reconstituir os glaciares e sua dinâmica durante a Última Glaciação, cujo máximo global ocorreu há cerca de 20 mil anos. O trabalho decorreu sem problemas e um pouco depois das 17h estávamos de volta à base para um encontro com os colegas da Base búlgara. O objectivo era falar acerca dos trabalhos em curso, e a fonte de inspiração foram fatias de presunto ibérico, chouriço, frutos secos diversos e vinho tinto, que serviram de catalizadores para a conversa.

Amanhã provavelmente faremos uma visita à Base Búlgara, que é aguardada com bastante expectativa, tanto por mim, como pelos meus colegas de projecto. Guardo boas memórias de uma festa que lá fizemos em Fevereiro de 2000. Por outro lado, estou também curioso em observar o retrocesso do glaciar da base, que recuou mais de 100 m em apenas 16 anos.

28/01/2006

===



Base Antárctica Espanhola Juan Carlos I às 23h

Perguntas e Respostas III

"Exactamente o que já descobriu até agora na Antártida?"
(4ºA)

Estamos a fazer um estudo sobre a temperatura da Terra, e para isso, uma das coisas que fazemos é abrir buracos, onde pomos termómetros que medem automaticamente as temperaturas a cada hora. Ao fim de cada ano, recolhemos esses valores de temperatura para um computador e estudamos as variações encontradas. Mas para descobrir coisas verdadeiramente importantes, precisamos de estudar as temperaturas durante muito mais tempo. Estes estudos demoram muito e os 6 anos que trabalhámos até agora ainda não são suficientes. Talvez só com 10 a 15 anos de estudo é que possamos dizer algo mais importante.

Mas descobrimos também muitas outras coisas. Estamos a trabalhar com uns instrumentos que nos permitem saber se há gelo debaixo da terra a poucos metros de profundidade, e já conseguimos encontrar sítios com gelo, e sítios sem gelo. Para os nossos estudos, isso é muito importante. Para terem uma ideia, em Portugal não há gelo como aquele que encontramos aqui na Antárctida, nem mesmo na Serra da Estrela.

Uma coisa que também nos interessa é que aqui na Antárctida algumas paisagens são parecidas com as paisagens de algumas montanhas portuguesas há 20.000 anos, quando o clima era muito mais frio do que hoje. Por exemplo, nas serras da Estrela, do Gerês e da Peneda, existiram grandes glaciares. Se nós percebermos como funcionam os glaciares das montanhas desta região, podemos também aprender muitas coisas para perceber como eram os glaciares que existiram nas montanhas de Portugal.


"No Verão a região da Antártida é fria á mesma?"
(4ºA)

A Antárctida é muito grande e no Verão há sítios muito frios, e sítios menos frios. Mas todos são frios, especialmente se compararmos com Portugal. Onde estou agora, na Ilha Livingston, o Verão não é muito frio, mas as temperaturas são parecidas com as da parte alta da Serra da Estrela. Mas há muito gelo e neve, e também icebergs no mar. Para terem uma ideia, a água do mar nesta ilha é tão fria, que uma pessoa que caia lá dentro só consegue sobreviver durante 2 minutos. Por isso, quando viajamos de barco insuflável, temos que vestir uns fatos especiais, muito quentes, e que nos mantêm secos se cairmos à àgua. Por isso, apesar da base onde estou estar numa praia, nem sequer vale a pena pensarmos em tomar banho. Uma das diferenças é que, em vez de gaivotas, a praia tem pinguins e focas, e no mar, muitas vezes vemos baleias. Mas a maior parte da Antárctida é muito mais fria do que o sítio onde estou, e as temperaturas são muito mais baixas que 0ºC, e andam à volta de -25ºC, como é o caso da base Amundsen-Scott do Pólo Sul.

Perguntas e Respostas II

"Qual é a constituição do permafrost?"
Tiago Lameira 10ºL

Olá Tiago,
Antes de mais, obrigado pela tua interessante pergunta e pela curiosidade em relação ao permafrost. Fico muito satisfeito por receber este feedback de Portugal, quando estou aqui tão longe, a cerca de 13.000 km de distância. Além disso, o permafrost é um tema praticamente desconhecido dos portugueses, e o interesse que está a despertar é incrível.

A tua pergunta pode levar a uma resposta longa, mas vou tentar responder-te da forma mas sintética possível.
Basicamente, o termo permafrost significa substrato permanentemente gelado, e pode também interpretar-se como solo permanentemente gelado. É essencialmente um conceito definido pela temperatura, e usa-se, para isso, o limiar de 0ºC, que é o ponto de fusão da água. Assim, todo o substrato que permanece a temperaturas inferiores a 0ºC durante mais de 2 anos, pode ser considerado permafrost.

A noção inclui o nível mais superficial do substrato, que frequentemente se trata de um solo (mas que pode não estar presente), mas inclui ainda o substrato propriamente dito, que pode ser qualquer tipo de rocha (granito, quartzito, xisto, etc.). Pode também haver permafrost em material não coerente, como por exemplo, as areias. No substrato, pode existir matéria orgânica e se esta também estiver a temperaturas inferiores a 0ºC, então também faz parte do permafrost. Há ainda regiões do globo onde o permafrost é muito rico em matéria orgânica, como a Tundra do Árctico, e essas regiões são especialmente importantes para estudar a relação entre o permafrost e as variações climáticas. Mas isto já tem a ver com a pergunta do teu colega, a que tentarei responder amanhã. Uma outra característica do permafrost, é que além de incluir o substrato, inclui ainda a água que se encontra congelada, bem como vários gases que devido ao solo estar congelado, ficam retidos no solo.

O volume de gelo no permafrost é uma característica muito importante, e pode haver permafrost com muito gelo, ou permafrost seco, ou seja, sem gelo. Não se pode confundir o permafrost com os glaciares, porque estes são massas de água congelada. O permafrost é diferente. Pode ter água congelada, mas essa água faz parte do substrato e tem uma origem com ele relacionada.

Um dos principais problemas para quem estuda o permafrost, é que é dificil de se observar à superfície. Para sabermos a distribuição do permafrost podem-se fazer perfurações para observar directamente o substrato e medir as temperaturas, pode-se fazer a cartografia das formas de relevo que são típicas das áreas com permafrost e que nos indicam a sua presença, ou podem-se utilizar métodos geofísicos, que permitem estudar o substrato a partir da superfície. Na Ilha onde estamos a trabalhar, aplicamos estas três técnicas, e mesmo assim, é muito díficil saber qual a distribuição e características do permafrost. Mas é um trabalho muito interessante, e quase de detective, onde estamos constantemente à procura de pistas que nos permitam aprofundar o conhecimento das características do permafrost da região. Um outro ponto interessante, é que é fundamental fazer trabalho interdisciplinar, ou seja, colaborar em equipas de investigação onde participam cientistas com diferentes especializações, e que levam a discussões muito interessantes, porque as diferentes formações dão uma perspectiva completamente diferente do mesmo tema.

Como vês, permafrost é um conceito muito amplo, e as regiões com permafrost ocupam áreas muito extensas da Terra, chegando a cerca de 25% da superfície dos continentes do Hemisfério Norte (principalmente Canadá, Alasca, Sibéria e Planalto do Tibete).
Espero que a minha resposta te seja útil e também aos teus colegas do 10ºL.


"Que relação existe entre o permafrost e as variações climáticas?"
Ricardo Ferreira 10ºL

Caro Ricardo,
Antes de mais, obrigado pela tua interessante pergunta e pelo interesse no tema.
Como disse na resposta ao teu colega, o permafrost é o solo que está permanentemente congelado. Há permafrost em várias regiões da Terra que está congelado hà centenas de milhar de anos, e em alguns locais, a idade do permafrost atinge mais de 1 milhão de anos. Nesse solo gelado há matéria orgânica que não se pode decompor, porque está isolada da atmosfera e porque a temperatura do permafrost é demasiado baixa. De uma forma sintética, a maior parte dessa matéria orgânica são restos de vegetais ou animais congelados e que estão, portanto, como que armazenados no permafrost, que funciona como um enorme reservatório de carbono. Se houver um aumento da temperatura, ou se houver mudanças nas condições da superfície (por exemplo, se uma área de floresta arder), a temperatura do permafrost pode aumentar, e se ultrapassar os 0ºC, o gelo no solo vai fundir. Ao fundir, geralmente formam-se áreas pantanosas, e o carbono que antes estava isolado no permafrost, vai-se decompor por acção de microorganismos, que o transformam em metano e em dióxido de carbono. Estes gases são então transportados do solo para a atmosfera, e o carbono que antes estava armazenado no solo, liberta-se para atmosfera, passando a integrar o sistema climático.

O dióxido de carbono e o metano são dois importantes gases de efeito de estufa, e se a sua concentração aumentar, o efeito de estufa vai também aumentar. Pensando de um modo simplificado, este fornecimento de gases de efeito de estufa pode provocar um aumento da temperatura da Terra, e consequentemente, um maior aquecimento do permafrost e a sua consequente degradação. A isto, chama-se uma retroacção positiva; ou seja, a fusão do permafrost, pode levar a uma maior ainda fusão do permafrost, e a um maior aquecimento global. E o aquecimento global pode ter várias consequências, como a mudança do ritmo climático, a intensificação dos fenómenos meteorológicos extremos, a subida do nível do mar, etc. E claro, isso é algo que nos afecta a todos.
Contudo, é importante notar que o sistema climático é muito mais complicado, e que há muitos outros factores que nele intervêem, e que podem contribuir para contrabalançar, ou mesmo para incrementar uma determinada retroacção. É, por isso, extremamente difícil prever os resultados das interacções entre a hidrosfera, a criosfera, a litosfera, a biosfera e a atmosfera.

O nosso projecto na Antárctida tem como objectivo estudar a evolução das temperaturas do permafrost e saber se estas estão a aumentar, ou a diminuir, e tentar perceber porquê. Para isso, fazemos perfurações no solo, onde instalamos termómetros a diferentes profundidades que registam automaticamente a temperatura em intervalos horários. Estes dados vão depois fazer parte de uma base de dados mundial de temperaturas do permafrost, que se designa GTN-P (Global Terrestrial Network - Permafrost) e que é mantida pela Organização Meteorológica Mundial e pela Associação Internacional do Permafrost.

Bom trabalho e um abraço,
Gonçalo Vieira

15. De serviço na limpeza, novamente

Dia de serviço na limpeza e na cozinha. Levantámo-nos às 6.45h para ter tudo pronto às 7.30h. Às 8h, como combinado por e-mail, recebi um telefonema da RTPi para uma entrevista acerca do projecto e da campanha de investigação. Depois de limparmos a sala de refeições, casas de banho e sala de estar, subimos ao Refúgio para iniciar a sondagem geoeléctrica que deixámos preparada ontem. Não conseguimos terminar antes do almoço, como tinhamos planeado. Tudo demora mais tempo do que costumamos prever, em especial nesta fase em que o cansaço já se vai acumulando. Descemos às 12.30h para preparar a mesa e servir o almoço. Às 14.30h voltamos a subir para terminar as sondagens, o que só sucedeu pelas 17h.

Enquanto trabalhávamos avistámos à distância um grande navio de cruzeiro a sair de Hannah Point do outro lado da Baía Sul. Todos os anos cerca de 20.000 turistas visitam a Antárctida, metade dos quais se centram nesta região, sempre durante o Verão. Vêm em navios de dimensões variadas que zarpam geralmente de Ushuaia em cruzeiros de cerca de 2 semanas, e que os levam a visitar os sítios mais turísticos da região. Um deles é a Ilha Deception, para onde iremos na próxima semana; outro é Hannah Point, uma pequena península que vemos ao longe desde a base, mas que para nós só é acessível em zodiac, depois de cerca de 1h para atravessar a baía. Este ano ainda não fomos lá, mas quando cá estive em 2000, foi o destino de um passeio domingueiro. Que luxo!

Em Hannah Point há uma pequena colónia de pinguins, uma colónia de focas-elefante e incríveis petreis a nidificar. Para os animais a presença humana é indiferente, e conseguem-se fotografias incríveis, tiradas a poucos metros de distância; sempre mais de 5, como definido pelo Tratado da Antárctida, sobre o qual escreverei algumas linhas mais tarde. Infelizmente, este ano Hanna Point, para nós não é mais do que uma mancha castanha do outro lado da baía. Para lá ir é necessário, por razões de segurança, levar 2 zodiacs e por enquanto, só está na base um piloto de zodiac. Pode ser que chegue outro…

Hoje a baía sul teve também a visita de um navio de guerra argentino. Navegava para vigiar as águas consideradas territoriais, e que coincidem com as reclamações territoriais do Chile, e em parte, com as inglesas, todas congeladas pelo Tratado da Antárctida.

Amanhã, vão estar de serviço os outros dois membros da equipa, e vamos ter um dia mais leve. Já definimos os locais para as sondagens geoeléctricas, mas como ainda não processámos os dados de hoje, pode ser que ainda mudemos de planos.

27/01/2006

===



Instalação da cadeia de termómetros na sondagem do Monte Reina Sofia

14. A humidade faz a força

Acordámos cansadíssimos. À noite, temos visto filmes em DVD no igloo de fibra de vidro onde dormimos. Como só acabamos de trabalhar às 23h, o filme só começa depois. Ou seja, quando nos deitamos, à 1h ou 2h da manhã…já é de dia! Neste momento do ano, temos cerca de 2 horas de noite escura, mas no início do mês, não chegava a anoitecer. Estamos a ficar cansados de dormir sempre no igloo em estreitas camas de ferro de campismo, em sacos-cama pouco quentes, e com o aquecimento desligado durante a noite. Quando acordamos pela manhã, está um frio de rachar, e calculamos uns 3 a 4ºC dentro do igloo. Começamos a sonhar com camas a sério…

Devido ao cansaço aproveitámos para ficar na base durante a manhã, pôr os e-mails em dia, analisar dados e preparar as sondas térmicas para a perfuração que temos no Monte Reina Sofia, foram as nossas actividades. Depois do almoço subimos de novo ao Monte Reina Sofia. Estes 275m de desnível diários com carga às costas, começam a pôr-nos em forma. Na subida cruzámo-nos com dois geólogos bulgaros que estão a fazer um levantamento geológico de pormenor da ilha. Estão os dois na base búlgara "Saint Kliment Ohridski" que está a cerca de 3km da base espanhola, mas que só é acessível de zodiac ou de skidoo. Aproveitámos este encontro raro, para discutir algumas dúvidas que tinhamos relativamente à estrutura geológica do Monte Reina Sofia, e para dar lume a um dos búlgaros, que acabou por ficar com o isqueiro "só para situações de emergência" do Christian, uma vez que nenhum de nós fuma. Os dois bulgaros dirigiram-se para a base espanhola, e pensávamos que ainda os iamos encontrar ao final da tarde, mas acabou por não ser possível.

Lá em cima o tempo estava bastante melhor do que nos dias anteriores: vento muito fraco, céu nublado, mas com nuvens acima de nós, e temperatura de uns 2ºC. É incrível a diferença que faz a ausência de vento e ainda da chuva e da neve. Quase não se sente o frio. Por isso, é que é mais confortável trabalhar em algumas áreas secas e frias do continente antárctico, com temperaturas bastante abaixo de 0ºC, do que na Antárctida Marítima. Mas como costumava dizer quando trabalhava no Inverno na Serra do Gerês, afinal a “humidade faz a força” .

Montámos mais um perfil para fazer sondagens sísmicas, e o Juanjo e o Christian ficaram a fazer um perfil sísmico, enquanto eu e o Stephan descemos para o Refúgio de Montanha a 170 m de altitude, aproveitando para começar a levar os tambores dos cabos eléctricos e os eléctrodos das sondagens dos dias anteriores. Descemos pela vertente nordeste do Monte R. Sofia, que tem formas muito bonitas ligadas à acção geomorfológica do gelo no solo. Lóbulos de pedras perfeitos que testemunham a ocorrência de processos de solifluxão, ligados à congelação e fusão sazonal dos níveis superficiais do solo. Essencialmente, durante o aquecimento que se inicia na primavera, o solo gelado começa a fundir lentamente, e os níveis superficiais ficam saturados em água, fluindo pela acção da gravidade. O processo é facilitado pela presença de gelo em profundidade que não deixa que a água de fusão se infiltre, e o solo passa a deformar-se lentamente num processo de fluxo gravítico. Formam-se assim línguas de blocos e calhaus, com uma frente de alguns decimetros e que se movem lentamente vertente a baixo.

Mas voltando aos trabalhos, depois de deixarmos o equipamento para as sondagens geoeléctricas no refúgio, descemos um pouco até um sector com acumulações de blocos de origem glaciária (moreias), onde instalámos novo perfil para as sondagens geoeléctricas de amanhã. Nos próximos dias, vamos a concentrar as nossas actividades em moreias localizadas a diferentes altitudes, para tentar compreender melhor quais os factores que controlam a distribuição e características do permafrost na ilha.

E amanhã estou novamente a fazer serviço de limpeza na base…

26/01/2006

===



Gonçalo Vieira e Stephan Gruber a fazerem um perfil de georadar próximo da Base Antárctica Espanhola na Ilha Livingston

13. O Monte Rainha Sofia revisitado

O dia de hoje foi praticamente uma réplica de ontem. Subida ao Monte Reina Sofia de manhã cedo, carregadíssimos mais uma vez, mas agora com o equipamento de sísmica. As condições meteorológicas foram parecidas, mas sem neve e com uma chuva miudinha, vento e muito nevoeiro. A temperatura era de cerca de 2ºC. Depois de 6 horas de trabalho, voltámos à base para almoçar…às 16h.

A tarde foi passada a analisar dados no computador e discutir resultados. À medida que vamos acumulando mais perfis geoeléctricos, vamos conhecendo melhor as características do substrato, mas novas perguntas surgem constantemente. Dá para animar, mas a cada nova pergunta, novas hipóteses vão sendo criadas e para as resolver são necessários novos perfis, noutros locais, ou com diferente resolução. Contudo, o tempo para trabalhar em Livingston já é escasso, e temos que definir prioridades. Partimos na próxima 4ª feira, o que implica que a 3ª feira seja passada a arrumar todo o equipamento. Alguns locais onde planeávamos trabalhar no início da campanha vão sendo substituídos por outros, que nos parecem mais apropriados para responder às perguntas que nos interessam mais.

Qual a distribuição do permafrost na ilha? Qual a variação da espessura do permafrost com a altitude? Onde é que o substrato é mais homogéneo? Qual a relação entre a resistividade medida nos perfis e a temperatura e o tipo da rocha? A maior parte destas perguntas não vão ter resposta nesta campanha, mas é certo que hoje sabemos muito mais acerca do permafrost na Península Hurd, do que sabíamos no dia 15 quando desembarcámos.

25/01/2006

===



Stephan Gruber e Christian Hauck no Monte Reina Sofia, um dos locais em que temos trabalhado e onde temos uma perfuração pouco profunda

12. Monte Rainha Sofia

Hoje foi o dia com piores condições meteorológicas desde a nossa chegada. Chuva miudinha, nevoeiro e vento pela manhã, com temperaturas ao nível do mar de 2-3ºC. Subimos cedo para o Monte Rainha Sofia, que é um dos locais que estamos a estudar e que tem 275m de altitude. O objectivo é fazer prospecção num local onde temos a certeza de que existe permafrost, para poder comparar os resultados com os obtidos nos outros locais, onde a presença de permafrost não é segura, ou é certo, que não se encontra presente.

Subimos cada um com cerca de 25kg, quando chegámos a meio do caminho, a um pequeno refugio, começou a chover com mais intensidade. Esperámos um pouco e voltámos a subir. No alto do monte, o vento soprava forte e havia muito nevoeiro, e as temperaturas rondavam os 0ºC. Pouco depois de iniciarmos o perfil geoeléctrico, começou a nevar. Foi o dia em que foi mais difícil fazer trabalho de campo e as 4h que passámos lá em cima foram bastante cansativas. É particularmente frio, para aqueles que estão mais parados a ler os dados e a enrolar os tambores. Quem vai mudando as pinças dos eléctrodos sempre se vai mexendo, e não passa tanto frio. No entanto, o entusiasmo pelos resultados que iamos obtendo, fez com que o tempo passasse rapidamente. Descemos para almoçar às 15h. Pelas 17h voltámos à área onde estivemos a trabalhar ontem para fazer sondagens com georadar, e que não tivemos tempo de terminar, pois rapidamente chegou a hora do jantar, que é pelas 19.30h. Amanhã, esperemos que o dia esteja um pouco melhor, porque para algumas das técnicas, em particular, a refracção sísmica e o georadar, a chuva introduz muito ruído nos dados.

24/01/2006

===



No Monte Reina Sofia a fazer sondagens geoeléctricas

11. A sísmica de refracção

Hoje foi difícil acordar. Como sempre, levantámo-nos às 7h para chegarmos a tempo ao pequeno-almoço. Por volta das 8.30h, depois de verificarmos o e-mail, saímos para o campo. Voltámos a trabalhar nas sondagens geoeléctricas que não terminámos ontem, e que desta vez correram bem. À tarde fizemos mais um perfil de sísmica de refracção que permite estudar a espessura dos depósitos superficiais, a estrutura geológica e a presença de gelo no solo. Basicamente, o processo consiste em instalar uma linha de sensores no solo (geofones), que estão ligados a um instrumento (sismógrafo) que regista o tempo que as ondas sísmicas demoram a chegar a cada geofone. É assim possível, reconstituir a estrutura do substrato, sem ser necessário fazer qualquer escavação. É um processo um pouco cansativo, mas que dá resultados muito interessantes.

A pouco e pouco, começamos a ter uma ideia melhor das características do substrato da área de trabalho, e também algumas noções mais concisas acerca da distribuição do permafrost na ilha. Contudo, ainda muito há para fazer; aliás, trabalhar na Antárctida é fascinante, porque em muitos aspectos, é ainda um mundo novo por descobrir, e o permafrost é um deles.

23/01/2006

===



Base Antárctica Espanhola Juan Carlos I e a Baía Sul: o panorama que temos diariamente...embora geralmente, mais nublado

10. Domingo, dia de descanso na Base

Domingo de eleições presidenciais em Portugal. Na base, um domingo como os outros. Não temos notícias. Não há rádio, nem televisão. As novidades chegam por telefone e por e-mail, que por vezes, tarda em funcionar. Na base, é dia de descanso para os técnicos. Amanhece um dia de sol incrível, com temperaturas altas, de cerca de 6ºC. Prepara-se a excursão domingueira, que desta vez vai ser à baía falsa, um local espectacular, com grandes glaciares, e vistas magníficas. Porém, como estivemos lá ontem, optei por não ir. Apenas foi o Stephan, que apanhou um enorme escaldão, mas fez fotos fantásticas e chegou entusiasmadíssimo com novos glaciares rochosos que avistou. Os restantes membros da equipa aproveitaram para pôr os e-mails em dia, ver um filme em DVD, e organizar dados. Nota-se bem que é dia de folga na base, e todos se arrastam. A meio da tarde, saímos para fazer novas sondagens geoeléctricas nas proximidades da base. Infelizmente, o tempo mudou rapidamente. Começou a chover e o vento ficou muito forte de nordeste. Depois de 3 horas à chuva, às 21h, acabámos por ter de voltar à base sem ter terminado o trabalho que nos faltava. A chuva originou uma série de problemas com o registo dos dados de resistividade do solo, e tivemos que voltar. É impressionante o modo como as condições meteorológicas variam na Antárctida Marítima. Aliás, por este facto, sempre que vamos para o campo, devemos levar duas mudas de luvas, luvas impermeáveis, óculos de sol e óculos de tempestade, roupas impermeáveis, e claro, também roupas menos quentes, porque quando se sobe com as mochilas às costas ficamos literalmente ensopados em suor.

22/01/2006

9. Viagem de Zodiac

O dia de hoje foi bastante diferente dos anteriores. Devido ao mar estar calmo, foi-nos sugerido que mudássemos os nossos planos, e que fizessemos, já hoje, a visita ao glaciar rochoso da Baía Falsa que estava planeada para a próxima 3ª feira. É assim que funciona uma campanha antárctica; apesar de tudo estar bem planeado, devido às condições meteorológicas, há alterações quase diárias ao programa delineado. Assim, tivemos um dia mais leve, e essencialmente dedicado ao reconhecimento geomorfológico de uma área que não conheciamos. Para chegar à Baía Falsa, faz-se uma viagem de zodiac de cerca de 30 minutos. A viagem é fantástica e cruzamos várias praias, arribas incríveis e glaciares de maré (glaciares que terminam no mar, libertando icebergs). Na zodiac, vamos vestidos com fatos secos e que nos permitem sobreviver durante 24h, em caso de cairmos ao mar. O pessoal da base chama-lhes os “teletubbies”, porque de facto, com eles vestidos, não parecemos outra coisa…

O objectivo do dia era visitar o glaciar rochoso da Baía Falsa, e valeu bem a pena. Um glaciar rochoso é uma acumulação de blocos de rocha, em forma de língua, a fazer lembrar um glaciar normal. Dentro dos blocos pode haver um núcleo maciço de gelo, ou pode existir gelo intersticial, que preenche os espaços vazios. Devido ao gelo, a massa de blocos deforma-se lentamente como se fosse um glaciar de gelo, dando origem a formas espectaculares. Os glaciares rochosos são testemunhos seguros da presença de permafrost, e por isso, são indicadores muito importantes para o tipo de estudos que estamos a fazer.

Depois da visita ao glaciar rochoso, voltámos à base a pé, aproveitando para visitar as áreas sem gelo da Península Hurd. Infelizmente, o tempo mudou, ficou vento e nuvens muito baixas, que nos reduziram a visibilidade para uns 50 m, e começou a chover. As temperaturas rondavam os 2ºC Estas condições mantiveram-se durante toda a viagem de volta, que demorou umas 3h. Antes de chegarmos à base, voltámos a parar na Portela onde temos estado a trabalhar, e fizemos vários perfis topográficos e geomorfológicos, que nos vão auxiliar na interpretação das sondagens geoeléctricas e sísmicas. Voltámos à base por volta das 17h e aproveitámos o fim do dia para organizar o e-mail, discutir os resultados do dia. À noite, filme de DVD, para descansar.

21/01/2006

8. De serviço na base

Estou de serviço na base com o Christian. Levantámo-nos às 6.45h para pôr a mesa do pequeno-almoço, que começa todos os dias, pontualmente, às 7.30h. Seguiu-se a lavagem da loiça, do chão dos espaços comuns e das casas-de-banho. Terminámos estas tarefas pelas 9.30h e fizemos uma pausa para café. Às 10.30h voltámos a subir ao Pico Rádio para terminar os perfis geoeléctricos do dia anterior. Ás 12.30h estávamos de novo na base para pôr a mesa e servir o almoço. Da parte da tarde instalámos novos sensores de temperatura da rocha, tarefa a cargo do Stephan e da sua “baby”, um berbequim portátil Hilti. O resto da tarde foi ocupado para analisar os dados dos dias anteriores, e para tentar pôr o e-mail em dia. Ao fim da tarde, e para o jantar, as tarefas são as mesmas do almoço. E assim, se passou um dia de serviço na base…felizmente, o próximo vai ser só daqui a 8 dias. Depois de escrever estas linhas, pelas 21.30h, ainda tivemos tempo de ir substituir a cadeia de termómetros automáticos da pequena sondagem que temos a cerca de 200 m da base.

20/01/2006

7. As sondagens geoeléctricas

Passámos a manhã na base a preparar os termómetros que vamos instalar no solo para o próximo Inverno. Alguns tambores com cabos eléctricos ficaram danificados durante o dia de ontem e tivemos que os reparar. Recolhemos também os dados das temperaturas do solo do ano de 2005 de uma sondagem que temos próximo da base, e fiquei espantado com as elevadas temperaturas que se fizeram sentir, em especial durante este Verão. Ainda vou ter que verificar melhor a série que temos desde o ano 2000, mas parece-me que este foi o Verão com temperaturas mais elevadas.

A seguir ao almoço subimos para a Portela Miguel Ramos e estivemos toda a tarde a fazer sondagens geoeléctricas. Foi o dia em que foi mais difícil trabalhar, com temperaturas em torno de 0ºC, céu nublado e um vento forte e constante de sul. Até agora, foi o único dia em soprou vento sul, pois tem sido sempre de norte, e mais fraco.

A força do vento foi de tal ordem que os investigadores que estão na Península de Byers acampados e que deveriam ter voltado hoje no navio Las Palmas, terão que passar lá mais uma noite. Isso porque, devido à ondulação e ao vento, não havia condições para as Zodiac (ou Zebros) navegarem, e os irem transportarem para o navio.

Só descemos à base às 19h30min. Depois de jantar, aproveitámos para discutir os resultados das sondagens geoeléctricas dos dias anteriores. As discussões são muito interessantes, porque todos temos formações diferentes e há sempre novas ideias que vão surgindo. Contudo, as dúvidas em relação aos resultados que estamos a obter, continuam, e a cada dia, achamos que temos mais ainda a fazer, de forma a tentar resolver os problemas que vão surgindo. Amanhã, toca-me a mim, e ao Christian, a limpeza da base. Vamos estar de faxina, mas esperamos ter tempo durante a manhã para subir à Portela Ramos e terminar uma parte que não conseguimos hoje.

19/01/2006

===



Pinguins Chinstrap na praia da Base Antárctica Espanhola Juan Carlos I

6. Portela Miguel Ramos

O tempo piorou e o dia esteve sempre com temperaturas próximas aos 0ºC, com céu totalmente coberto de nuvens baixas e com vento fraco. Passámos o dia a trabalhar na área do Pico Rádio, num sector que designámos por Portela Miguel Ramos em homenagem ao coordenador do projecto, e veterano da Antárctida. Foi um dia pesado de trabalho, e só terminámos às 18h. Fizemos um perfil geoeléctrico de 150m, com o objectivo de conhecer a estrutura do substrato e do permafrost. Começam a surgir alguns dados interessantes, em especial no que respeita à resistividade dos diferentes tipos de rocha e à influência exercida pelos neveiros que permanecem no solo. Na base, a maior parte do tempo é passado a verificar e analisar os dados recolhidos durante o dia, a discuti-los, e a preparar as actividades do dia seguinte.

18/01/2006

===



Christian Hauck a fazer as sondagens geoeléctricas 2d na Portela Miguel Ramos

5. Planalto do Pico Rádio

Hoje foi o primeiro verdadeiro dia de trabalho. Saímos pelas 9h em direcção ao Planalto do Pico Rádio, que fica a cerca de 20 minutos a pé, e a cerca de 130 m de altitude. Subimos carregados, cada um, com cerca de 30 kg de material para fazer sondagens geoeléctricas e refracção sísmica. O objectivo é conhecer as características do substrato, perceber se é homogéneo, ou não, e se o permafrost é rico em gelo. Estamos a estudar vários perfis, de modo a depois podermos escolher qual o melhor local para as perfurações para monitorização do permafrost, a instalar o próximo ano.

Felizmente, o tempo não tem estado mau. A temperatura esteve em torno de 2ºC, céu nublado e chuviscou, mas não esteve praticamente vento, o que facilitou bastante o trabalho de campo. O principal problema são as várias horas que passamos no exterior, frequentemente sem nos movermos muito, o que com a humidade dificulta o trabalho e aumenta fortemente o cansaço. Hoje, por exemplo, estivemos no exterior a trabalhar, das 9h às 17h, com uma breve pausa para almoço. Neste momento, é quase meia-noite e meia, e só há pouco terminámos de tratar os dados recolhidos ontem e hoje. Amanhã, o despertar é às 7h, para novo dia de trabalho no Pico Rádio.

17/01/2006

===



Equipa do projecto PERMAMODEL com o material para o primeiro dia de trabalho de campo

4. Livingstone

Chegámos de manhã à Ilha Livingston, depois de uma noite passada no navio Las Palmas. O tempo está extraordinário, aliás, tal como ontem. Um sol radioso e temperaturas da ordem dos 3ºC. Incrível! Algo raro por estas paragens, mas que, ao que parece, tem sido frequente durante este Verão. Descemos do navio às 9h da manhã, e aproveitámos a manhã para arrumar as coisas, e para nos instalarmos na base. Vamos ficar num igloo de fibra de vidro com espaço para 4 pessoas, que está próximo do módulo principal da base. Neste momento, somos um grupo de 8 cientistas e de 12 técnicos de apoio.

Depois de um óptimo almoço, aliás típico da base Juan Carlos I, fizemos um primeiro reconhecimento à ilha, acompanhados por dois técnicos de montanha. Basicamente, a tarde de hoje serviu para me relembrar das características de alguns locais, para os mostrar aos meus colegas de projecto, e para discutirmos melhor as actividades que desenvolveremos nos próximos dias.

A ilha está muito bonita, e há vários icebergs na baía. Ao fim do dia o céu começou a ficar nublado e as temperaturas desceram um pouco, mas não há vento, o que é excelente. Fiquei impressionado com o retrocesso que afectou os glaciares deste sector da Península Hurd nos últimos 5 anos, notando-se em alguns locais um retrocesso de algumas dezenas de metros.

16/01/2006

===



Desembarque na Ilha Livingstone

3. King George

Hoje um voo da Força Aérea Chilena levou-nos desde Punta Arenas à Ilha de King George, já no arquipélago das Shetlands do Sul, próximo da Península Antárctida. O voo demorou duas horas e meia, e serviu de transporte aos membros das campanhas antárcticas sul coreana e peruana. A meio da tarde, embarcámos no navio Las Palmas, um rebocador adaptado para as campanhas polares, que nos transporta neste momento para a Ilha Livingston. As poucas horas passadas em King George Island chegaram para refrescar as memórias que tinha da minha última estadia na Antárctida, em especial no que respeita à fauna, que é verdadeiramente incrível. Só hoje, vimos uma colónia de focas-elefante, lobos marinhos, focas caranguejeiras, pinguins e três baleias. Esta é uma das características que faz da Antárctida um sítio tão especial.

15/01/2006

===



No avião para a Ilha de Rei Jorge


Vista das Ilhas Shetland do Sul do avião da Força Aérea Chilena

2. Finalmente, em Punta Arenas

Finalmente estamos em Punta Arenas, no Chile. Passámos a tarde de dia 11 em Ushuaia a comprar algum equipamento que faltava para a campanha e aproveitámos também para fazer um passeio pela montanha, onde apanhámos a primeira queda de neve. O passeio serviu para desentorpecer as pernas e para nos habituarmos ao exercício físico que vamos ter diariamente na
Antárctida.

No dia 12, depois de algumas peripécias com o autocarro em que deveríamos viajar, saímos de Ushuaia ao meio-dia, em direcção a Punta Arenas. Viajem épica, de 16 horas de autocarro, para fazer 700 km, sendo que quase metade, foi em estradas de terra batida. Agora sim, percebo bem o isolamento em que vivem os mais de 40.000 habitantes de Ushuaia…são quase 4 dias de carro até Buenos Aires! As paisagens são fantásticas e fazem as delícias de um geógrafo. Passámos os Andes Fueguinos, e seguimos pelas planícies da Terra do Fogo, cruzando o Estreito de Magalhães já durante a noite. Chegámos já depois das 3h da manhã a Punta Arenas, onde agora nos encontramos.

Durante estes 2 dias em Punta Arenas, aproveitamos para descansar um pouco, e para trabalhar, enquanto esperamos pelo voo da Força Aérea Chilena que nos levará para a Ilha de King George no Domingo de manhã. Há muito trabalho em atraso, acumulado dos dias anteriores, e passámos a manhã de dia 13 a preparar vários resumos, que entretanto submetemos para apresentar num congresso em Viena no próximo mês de Abril. Agora, resta-nos esperar, sem, infelizmente, nos pudermos afastar muito de Punta
Arenas, pois o voo para King George pode ser alterado a qualquer momento. Se tudo correr como previsto, amanhã chegamos à Antárctida, e depois faltam-nos apenas cerca de 10h de barco até Livingston.

Gonçalo Vieira, Punta Arenas
14/01/2006

===



Os Andes Fueguinos na viagem entre Ushuaia e Punta Arenas


Ponte sobre o Rio Grande e a pampa argentina


Calle Gob. Carlos Bories, a rua principal de Punta Arenas ao fim
da tarde de 6ª feira, 13/01 (Chile)

Perguntas e Respostas I

«Olá nós somos o Joaquim e o Vitor da Escola do Tanque Santo Amaro da Madeira do 4º ano. Queríamos perguntar se no seu percurso passa pela Madeira? Explique-nos como é o clima lá, também diga-nos se vivem lá pessoas, quanto tempo demorarão até chegar à ilha de Livingston.»

Olá Joaquim e Vitor,
Obrigado pela vossa mensagem de apoio! É óptimo saber que estão atentos àquilo que fazemos! Estou agora em Punta Arenas, no sul do Chile, e só devo chegar à Antárctida no Domingo. Na viagem de avião, passámos entre a Madeira e os Açores, quando iamos para Buenos Aires, na Argentina. Em relação ao clima e à forma como vivem as pessoas, vou falar sobre isso em detalhe no blog da internet dentro de alguns dias, mas posso dar-vos uma pequena ideia. As temperaturas andarão entre -7 e +3ºC e vai nevar um bocado, e às vezes chover junto à praia, onde está a base. O vento é muito forte, e juntamente com a neve e a chuva, e claro, com o frio, tornam dificil o trabalho ao ar livre, mas lá terá que ser.

Não vive ninguém na Antárctida, e há apenas bases científicas, por isso, há quem fique por lá umas semanas, outros uns meses, e alguns, mesmo mais de 1 ano. Mas, na região onde vou, e em especial nas Ilhas Livingston e Deception, há apenas bases científicas que só estão a funcionar cerca de 4 meses no Verão (que no hemisfério sul, está a ser agora). Na base, vamos estar cerca de 20 pessoas, muito longe de tudo, sem televisão, nem rádio, e só com acesso ao email e ao telefone por satélite.

Espero que continuem interessados na nossa campanha e que a sigam no blog. A razão pela qual, não posso enviar a mensagem para o blog que referem, é porque apenas tenho acesso ao email, e não à Internet. É um colega meu, que me faz o reenvio da informação que vai aparecendo no blog, e eu envio-lhe directamente para ele.
Um abraço,
Gonçalo

1. No avião para Ushuaia

Depois de 2 anos de preparação, começou a campanha antárctica de 2006. Para estudar a Antárctida, é preciso sempre planear as coisas com grande avanço, porque além da questão financeira, há também toda a logística, que envolve a disponibilidade de lugares nas bases e nos navios que fazem o transporte, bem como a preparação das actividades lectivas, de modo, a que durante a campanha, outros colegas nos possam substituir na Universidade.

A viagem começou cedo. Ontem, às 4h45 tinha um Táxi à porta de casa para me levar ao Aeroporto de Lisboa. Voo às 7h para Madrid, onde me juntei ao resto da equipa, constituída pelo Juanjo Blanco da Universidade de Alcalá de Henares (Espanha), Stephan Gruber (Universidade de Zurique, Suiça) e Christian Hauck (Universidade de Karlsruhe, Alemanha). É com eles que vou passar as próximas 6 semanas em viagem e na Antárctida. Apresentá-los-ei no Diário de Campanha dentro de alguns dias.

Às 12h embarcámos em direcção a Buenos Aires, num voo de quase 13 horas e que nunca mais acabava. Seguiram-se 3 horas de sono num hotel ao lado do Aeroporto Nacional, e de novo, avião para Ushuaia às 5h30 da manhã. É durante esse voo que escrevo esta primeira entrada no diário de campanha, que vou tentar actualizar com regularidade. Chegaremos a Ushuaia às 9h10 e temos então o dia livre. Amanhã de manhã, vamos de autocarro para Punta Arenas, no Chile, atravessando toda a Terra do Fogo. Aí vamos esperar até ao dia 15, que um avião da Força Aérea Chilena nos leve, atravessando o Estreito de Drake, até à Ilha de King George, já nas Shetlands do Sul, o arquipélago que estamos a estudar. Em King George, teremos ainda que embarcar no navio espanhol Las Palmas, que faz o apoio logístico às duas bases antárcticas.

Enfim, ainda temos muitas horas de viagem pela frente, e só mesmo na próxima 2ª feira, ou seja, depois de 5 dias de viajem, é que devemos começar a preparar as actividades de investigação.

Espero poder contar com a vossa visita a este site, e estou curioso em receber as perguntas que os alunos das escolas que colaboram no projecto, me irão fazer.

Gonçalo Vieira, Avião Buenos Aires – Ushuaia.
11/01/2006

===



Equipa do Projecto PERMAMODEL no porto da cidade de Ushuaia, no sul da Argentina. Da esquerda para a direita: Christian Hauck, Stephan Gruber, Juanjo Blanco e Gonçalo Vieira.



Em Ushuaia, uma das tarefas, foi comprar algum material em falta para o equipamento de prospecção geofísica. Neste caso, precisávamos de eléctrodos. Na foto está o Christian a cortar uma vara de ferro em pedaços de 40 cm, e o Juanjo a ajudá-lo.

Bem-vindos ao blog do Projecto PERMAMODEL

Caros visitantes do site da campanha antárctica do projecto PERMAMODEL:

Neste site vou apresentar um diário de campanha que permitirá acompanhar as actividades de investigação na Antárctida que vamos realizar no âmbito do projecto PERMAMODEL, que tem como objectivo estudar o Permafrost (solo permanentemente gelado) da Antárctida Marítima e o seu comportamento face às variações climáticas. Espero poder ir enviando novidades diariamente, mas haverá períodos em que provavelmente, tal não será possível.

Um aspecto interessante neste blog, é a participação directa de alunos de vários graus de ensino, que enviarão perguntas sobre a campanha e sobre a Antárctida, às quais tentarei responder, com a máxima brevidade possível. A Associação de Professores de Geografia estabeleceu os contactos com a Escola Secundária Miguel Torga, em Queluz e com o Colégio de Santa Clara – Casa Pia de Lisboa, que participarão no projecto. Agradeço, por isso, às Professoras Sílvia Lemos e Telma Canavilhas, pela sua pronta disponibilidade em apoiar esta iniciativa. O Oceanário de Lisboa, incluirá no seu site uma síntese do diário de campanha e um link para o blog.

Convido também, quem estiver interessado, a comentar os vários posts apresentados no blog.

Mais informações sobre o projecto PERMAMODEL, podem ser encontradas em http://permamodel.no.sapo.pt.
Fizemos também uma nota de imprensa que sintetiza os principais factos da campanha.

Finalmente, agradeço ao João Verde e ao site Geographus, pelo apoio no alojamento e pela manutenção do blog.

Lisboa, 6 de Janeiro de 2006

Gonçalo Teles Vieira
Investigador do Centro de Estudos Geográficos (Univ. de Lisboa)

Apoios

Associação de Professores de Geografia
http://www.aprofgeo.pt

Oceanário de Lisboa
http://www.oceanario.pt