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38. De volta a casa

Chego a Lisboa pelas 16h. Finalmente esta longa semana de viagem chegou ao fim, e também a campanha. Agora, aproveitar para descansar um pouco durante uns dias, e depois voltar ao trabalho. Todos na equipa PERMAMODEL estamos de acordo que a campanha cumpriu os objectivos e que foi muito mais além do esperado. Ficámos a conhecer muito melhor as características do permafrost das duas ilhas, e a aplicação dos métodos geofísicos que usámos vai proporcionar também excelentes novos resultados, com interesse não só para os estudos na Antárctida, mas também para outras regiões com permafrost. Agora, falta-nos analisar os dados com mais calma, para organizar as várias ideias e conclusões que fomos discutindo ao longo da campanha. Seguramente, temos material para vários meses de trabalho.

19/02/2006

37. Airbus para Santiago

Continua a saga de volta. Saímos cedo pela manhã, e apanhámos o avião das LAN para Santiago. Um excelente Airbus, novo. A marca aplica-se bem ao tipo de viagem que nos esperou. Duas escalas. Uma em Balmaceda e outra em Puerto Montt. Um verdadeiro “air bus”! Chegamos a Santiago às 13h e como o avião para Madrid sai às 20h, aproveito a oportunidade para ir com o Juanjo ao centro da cidade, para sentir um pouco a atmosfera da capital chilena. Passeámos durante cerca de 2h pelo centro. O centro parece-se a uma grande cidade espanhola, embora se note que há muito mais pobreza. É interessante ver a mistura de culturas. Não temos muito tempo, e voltamos, não sem antes comermos num típico restaurante chileno: Burger King. Preferimos optar por não comer a típica sandes de carne assada de Santiago, cheia de molhanga, porque 1 mês na Antárctida reduz a defesas do organismo e as 13h de voo até Madrid passadas na casa-de-banho seriam ainda menos divertidas.

18/02/2006

36. A festa num cubículo surreal

Ontem, depois do copo de vinho chileno, soubemos de uma festa organizada na sala de máquinas. Um sítio minúsculo, com cerca de 16m2, situado na parte lateral do navio, por baixo da pista do helicóptero. É o cúbiculo de onde se controlam as gruas do navio, e é quase como que se fosse um pequeno contentor, rodeado de janelas. Como está situado junto ao rebordo estibordo do navio, e a cerca de 6m de altura em relação ao mar, a vista das janelas é incrível. Para se chegar ao cúbiculo é preciso sair da parte interior do navio e caminhar no convés. A escuridão é total. Abrimos a porta e sai de lá de dentro música celta com um volume muito elevado. Há apenas uma luz vermelha pendurada no tecto. O ambiente é surreal. Cerca de 25 a 30 pessoas estão dentro do cúbiculo. A maior parte dança ao som da música. Incrível. Das janelas vê-se o mar praticamente em baixo de nós. Deixamos o Oceano Pacífico e voltamos a entrar nos canais. De cada vez que uma onda empurra o barco, todos somos empurrados. Dá a sensação que o cúbiculo vai cair no oceano, deslizando do barco. Ao princípio faz alguma impressão, e mantenho-me perto da porta, pronto para saltar para o convés. Mas são apenas pequenos balanços, e rapidamente percebo que o local é palco frequente de festas semelhantes. Foi uma despedida inesquecível para a campanha.

Levantamo-nos cedo, tal é a vontade de chegar a terra. Às 7h30, Punta Arenas já está à vista. O Estreito de Magalhães é muito amplo próximo de Punta Arenas, e deve ter, pelo menos, uns 20km de largura. Está um sol fantástico, mas muito vento, típico destas paragens. Passamos a manhã à proa a apreciar a paisagem, sentados ao sol, abrigados do vento. Só chegamos ao porto às 12h. A inspecção alfandegária demora muito tempo e desembarcamos por volta das 13h30. Finalmente em terra!

Aproveitamos o resto do dia para descansar. Passeamos por Punta Arenas. Refazemos o estômago dos vários dias em que comemos sandes, e deleitamo-nos com comida típica da Patagónia. Ao almoço, bife de vaca e ao jantar um fenomenal prato de cordeiro da Terra do Fogo. Deitamo-nos cedo, porque amanhã temos que nos levantar às 5h30 para apanhar o avião para Santiago do Chile.

17/02/2006

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Equipa PERMAMODEL a descansar no Hespérides no último dia de viagem


Chegada a Punta Arenas

35. Canal Beagle

Acordámos às 7h para ver a paisagem. Finalmente chegámos ao Canal Beagle e deixámos o Estreito de Drake. Todo o dia foi passado a atravessar os canais, que são na realidade belíssimos fiordes (vales glaciários actualmente ocupados pelo mar). A paisagem foi fantástica ao longo de todo o dia. Primeiro cruzámos áreas com montanhas de algumas centenas de metros de altitude, e muitas árvores. Verde por todo o lado, algo que na Antárctida só ocorria pontualmente nas colónias de musgos das áreas mais húmidas e baixas. O vento esteve presente todo o dia, e quase sempre muito forte. Mesmo assim, permanecemos no convés a olhar a paisagem e a fazer fotografias. Dezenas de fotografias. Esteve sol, choveu. Enfim, houve de tudo um pouco. Logo pela manhã passámos junto a Puerto Williams a povoação mais meridional da Terra, e algumas horas depois, avistámos Ushuaia, onde estivemos há cerca de 1 mês.

Para sul do Canal Beagle tinhamos o Chile, e para norte a Argentina. Mas a oeste de Ushuaia, entramos definitivamente no Chile. Então, as montanhas tornam-se mais elevadas, ultrapassando os 1000m, e os primeiros glaciares começam a pontuar a paisagem. À medida que avançamos, os Andes Fueguinos vão mostrando todo o seu esplendor. Não vive ninguém em dezenas, ou mesmo centenas de quilómetros em redor e a paisagem é incrível. As montanhas têm picos aguçados com vertentes a mergulhar nos fiordes, e glaciares descem por vales encaixados, formando cascata de gelo lindas, com tons de azul indescritíveis, típicos do gelo velho, muito comprimido que fluiu do alto da montanha. Para um geomorfólogo a paisagem é fantástica, e a máquina fotográfica não pára de disparar. Continuamente vemos formas de relevo e depósitos que vamos tentando interpretar. Fiquei impressionado com o retrocesso glaciário, que é evidente pelas marcas frescas de erosão glaciária deixada na paisagem. Espantoso! E sem uma única marca da intervenção do homem. Não há casas, caminhos, árvores cortadas, nada! Que eu tenha notado, ao longo de todo o dia, a oeste de Ushuaia, apenas nos cruzámos com dois navios e um veleiro.

Á tarde começou a chover, o que até foi bom, porque estávamos gelados e a chuva obrigou-nos a ir para dentro do barco. Depois do jantar voltámos a sair. Estávamos finalmente a abandonar os canais, para cruzar durante algumas milhas o Oceano Pacífico, virar depois para norte, e entrar novamente nos canais em direcção a Punta Arenas. À entrada do Pacífico a ondulação aumentou muito e entrámos no pacífico à proa a saborear o vento e os salpicos do mar. Mas a ondulação aumentou de tal forma, que tivemos que voltar a entrar. O ambiente na sala dos investigadores é agora mais relaxado. Nota-se que está toda a gente satisfeita por chegar a terra e voltar a casa. Os cerca de 30 biólogos que estão connosco no Hespérides estiveram mais de 1 mês no navio a recolher amostras, tendo ido até ao Mar de Bellingshausen a 71ºS. Todos aguardamos a chegada a Punta Arenas amanhã de manhã. Para a equipa do projecto PERMAMODEL a viagem durou 5 dias e 5 noites. Para mim, foi mais uma interessante experiência de cruzar o Drake e que serve basicamente para termos consciência do isolamento que tivemos na Antárctida durante as últimas 5 semanas. Mas há que dizê-lo, as 2h30 de voo entre Punta Arenas e King George do início da campanha, são um modo muito mais confortável de fazer a viagem… tenho que parar. É meia-noite e os biólogos acabam de abrir uma garrafa de vinho.

16/02/2006

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Chegada ao Canal Beagle


Glaciares do Canal Beagle

34. No final do estreito de Drake, com o mar mais calmo

21h13: Aproximamo-nos do final do Estreito de Drake. O mar está mais calmo, e já é mais fácil andar de um lado para o outro no navio. Dentro de 6 horas chegaremos à América do Sul, e entrarão no navio os “prácticos” chilenos que nos vão guiar pelos canais.

Passámos uma noite melhor do que a anterior. Deslizei menos no chão, e não preciso dormir agarrado ao armário, o que já é um grande avanço. O dia foi igual aos anteriores. Deixar passar o tempo, tentar trabalhar, dormir, esperar. Depois do almoço, quando estávamos no exterior tivemos o momento alto da travessia. Dois cetáceos do tamanho de orcas saltaram ao lado do navio durante breves segundos. Foi incrível, vê-los a saltar a cerca de 50m de nós, no meio de ondas de 5 ou 6 metros. Tivemos sorte!

Acabam de me dizer que temos terra-à-vista. Vou subir à ponte para ver. Amanhã, cruzamos os canais da Terra do Fogo.

0h26: Foram-se as ondas. O mar está calmo, e aproximamo-nos da Terra do Fogo. Está um luar fantástico e um céu estrelado. O dia de amanhã promete bom tempo. Ao longe, vêem-se os contornos da Ilha dos Estados (Argentina) e um farol brilha ao longe. No camarote 11 a bióloga italiana Cristina Gambi toca viola e canta uma balada. Quase sem ondas, e com um oscilar suave do navio, a viagem torna-se muito mais agradável. Nota-se que todos estão mais animados com o aproximar do fim da viagem e com a volta a casa. Deitamo-nos com o som da viola e dos motores do navio como fundo.

15/02/2006

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O Estreito de Drake visto da ponte do Hespérides

33. No estreito de Drake

11h40: Estamos em pleno Drake. O barco abana fortemente e de forma irregular ao sabor das ondas. Passei a noite a deslizar no chão deitado no saco-cama. A parte pior foi entre as 2h e as 5h da manhã, que tive que passar com a mão agarrada a um armário. Acordámos às 9h30, demos as nossas voltas pelo barco e cada um tenta a sua forma de passar melhor o tempo. Uns lêem, outros dormem e outros aproveitam para trabalhar. De vez em quando fazemos uma visita à ponte para ver a vista e arejar um bocado. Para a tarde, prevê-se uma pioria das condições do mar.

22h14: Continua a viagem. O mar está igual à noite anterior. O barco range, é difícil andar em pé, e quando estamos sentados, as cadeiras deslizam. É praticamente impossível trabalhar. Já quase desisti de fazer esforço para isso. Passo muito tempo na ponte a observar o mar. Tem uma cor cinzento-azulada incrível. A proa ao embater nas ondas faz efeitos fantásticos. É um descanso para a cabeça estar sentado a observar a janela da frente da ponte, com o mar como horizonte. Cada vez que subo, vejo um petrel de cor escura que acompanha o navio, passando várias vezes à nossa frente. Por 10 minutos, perdi a hipótese de ver 3 baleias que nadavam mesmo ao lado do navio.

Não podemos sair para o exterior devido ao estado do mar. O ar está pesado e em alguns sítios está demasiado calor. Arrastamo-nos pelo navio. Dentro de alguns dias, já nos devemos conseguir orientar cá dentro. O Hespérides não é muito grande. Tem 85m e 4 pisos, mas não há quase pontos de referência no interior. Apenas portas fechadas com inscrições em cima “Pasillo de popa”, “escaleras”, “cam. cientificos nr. 7”. Este último é de dois colegas que entraram connosco em Deception e é lá que está a casa-de-banho que temos usado. Já só faltam 3 noites no chão. Em princípio, amanhã ao fim do dia chegaremos à América do Sul. O dia de 5ª feira vai ser passado a cruzar os canais da Terra do Fogo. Seria óptimo termos bom tempo.

14/02/2006

32. Navegando no estreito de Bransfield

Pela manhã chegamos à Ilha de King George. A viagem de cerca de 12h desde Deception correu sem percalços, apenas com uma ligeira ondulação. Acordei às 7h e dormi muito bem. O chão não me incomoda. O mais chato é a falta de privacidade.

Começa a rotina do barco. Pequeno-almoço até às 8h30, intervalo para sandes às 10h, almoço às 13h30 e jantar às 19h15. Zarpamos de King George por volta das 11h. Passo a maior parte do tempo sentado a trabalhar no computador e a ouvir música. Subimos também à ponte, damos voltas pelo navio, tomamos café. Enfim, é o ritmo da viagem de volta. É preciso ter paciência. Aos poucos vou-me lembrando de coisas passadas na campanha anterior… a perda da noção do tempo, em especial porque não vemos praticamente o exterior; é difícil organizar o trabalho. Parece que temos toda a semana livre pela frente, mas receamos o Drake e que nos impossibilite trabalhar. Além dos dados da campanha que devemos organizar, temos artigos em preparação, e um monte de coisas de outros projectos que estiveram paradas durante o tempo da campanha. Só de pensar que tenho cerca de 400 testes dos meus alunos, em Lisboa, à espera de serem corrigidos, fico com pesadelos.

Corre o rumor de que vamos ter mau tempo… propício ao enjoo, mas parece que menos mau do que em 2000. Ao menos isso. Passar o Drake sem ondas também não tem graça. Assim, ao menos ficamos com mais qualquer coisa para contar aos nossos netos.

Gosto de sentir as ondas enquanto trabalho, mas é difícil combater o sono. São 16h30 quando escrevo e começa-se a sentir mais ondulação. Lá fora está a nevar e muito vento. Estamos a rodear a Ilha de King George pelo norte, mas ainda ao abrigo da ondulação do mar aberto. Navegamos no Estreito de Bransfield, que divide as Shetlands do Sul da Península Antárctica. A ideia é entrar no Drake com a ondulação pela popa para facilitar a navegação. Navegamos a 12 nós. Se tudo correr bem, demoraremos cerca de 48h a atravessar o Drake. Depois, será apenas necessário atravessar os canais da Terra do Fogo, mas aí a ondulação já quase não se vai fazer sentir.

Depois de 1 mês a falar espanhol e inglês, começo a ter alguma dificuldade em organizar um texto em português correcto.

13/02/2006

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Adeus à Ilha de King George, com brash no mar

31. Partida da Base Gabriel Castilla

Chegou o dia de partida da Base Gabriel Castilla. Ainda temos trabalho no campo por terminar e experiências para montar. Além disso, falta-nos ainda arrumar todo o equipamento nas caixas que vão seguir directamente para Espanha. Dividimo-nos em dois grupos. Eu e o Juanjo vamos subir ao patamar próximo de Crater Lake para acabar as medições na camada activa e instalar dois termómetros. O Christian e o Stephan vão fazer um perfil de refracção sísmica próximo da base. Voltei do campo com o Juanjo ainda a tempo do almoço de domingo que começava às 15h. Depois do almoço arrumámos todo o material, o gabinete de trabalho e as malas. Deixámos a base Gabriel de Castilla rumo ao navio oceanográfico Hespérides pelas 20h. Os chefes das bases ofereceram-me a bandeira portuguesa que esteve hasteada nas bases durante a minha estadia. Sabem que estou ligado ao Comité para o Ano Polar Internacional 2007-08 e deram-me a bandeira com o objectivo de a hastear numa futura base antárctica portuguesa. Foi um gesto bonito, que mostra bem a fraternidade que se vive na comunidade antárctica, e o apoio que Espanha está disposta a dar à investigação portuguesa na Antárctida.

Começou a derradeira e longa etapa de regresso a casa. Temos pela frente, dependendo das condições meteorológicas, cerca de 1 semana de viagem. Primeiro temos que ir buscar um grupo de cientistas à Ilha de King George (Ilha 25 de Maio para os argentinos) e só depois atravessamos o Estreito de Drake em direcção a Punta Arenas, na América do Sul, onde devemos chegar na 6ª feira de madrugada. São mais de 5 dias de navegação atravessando o pior oceano da Terra. Vamos ver se temos sorte. Na anterior campanha em que participei, a viagem para a Antárctida foi dura, com ondas de 12m e 4 dias de viagem; mas no regresso, tivemos um Drake suave, e que fizemos em apenas 3 dias.

O navio está com lotação esgotada, algo que já sabíamos, o que quer dizer que não há camas para nós. Toda a viagem vai ser passada a dormir no chão da sala de reuniões dos cientistas. 5 noites! Vamos dormir num canto da sala, junto a vários sofás dispostos em direcção a um ecrã de plasma. A sala tem uns 15 m de comprimento, por 5 m de largura e é um local de passagem central no navio. Não há janelas, e as paredes estão cheias de portas, 10 das quais são de camarotes dos outros cientistas. Felizmente temos uma ampla mesa de trabalho, onde vamos poder ocupar o tempo. Ah! e o chão é de madeira. Confortável madeira! Teria que haver alguma vantagem :) Agora falta saber como vai estar o Drake e se vamos resistir ao enjoo típico destas bandas.

12/02/2006

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Carregando o equipamento do projecto PERMAMODEL


Despedida da Base Gabriel de Castilla (Ilha Deception)

30. A baía dos baleeiros

O início da manhã esteve agradável, com temperaturas em torno de 3-4ºC e o sol a aparecer por entre as nuvens. Depois do pequeno-almoço saímos de zodiac para Whalers Bay, uma enseada do outro lado da caldeira. A viagem demora cerca de 20 minutos. Quando chegámos estava um barco com turistas americanos ancorado na baía e um pequeno veleiro. Mais tarde, outros colegas nossos viram os mesmos turistas a tomar banho em Pendulum Cove, onde a água da baía é aquecida pela actividade hidrotermal. Vi as fotos dos meus colegas, onde se via um grupo de umas 20 pessoas a tomar banho, uma velhinha vestida de pinguim e duas pequenas palmeira e um pinguim insuflável na praia. Surrealista e triste… ao que chega o turismo antárctico! Em Whalers Bay uma americana perguntou-me há quanto tempo estávamos na base, e quando eu lhe disse que estávamos há 1 mês, ela respondeu “ah! só…”. Não há paciência. Acho que devia estar à espera de uma história de isolamento e sofrimento para poder contar à família.

Whalers Bay ou Baía dos Baleeiros, em português, é um porto abrigado dentro da caldeira de Deception, que foi ocupado no princípio do séc. XX pela indústria baleeira. A baía é muito bonita, com uma ampla praia rodeada por crateras vulcânicas e glaciares cobertos de cinzas e piroclastos. Junto à praia a água da baía está a cerca de 60ºC e vêem-se bonitas emissões de gases e vapor. Cheira a enxofre.

A actividade baleeira na ilha iniciou-se em 1905, quando devido à redução das capturas, terminou o período de caça à foca que caracterizou a segunda metade do séc. XIX. Na década de 1910, chegaram a laborar na baía 12 navios-fábrica e 27 empresas baleeiras, e ainda hoje se encontram as ruínas dos edifícios ligados à actividade baleeira, que estão protegidos como monumentos históricos da Antárctida. Devido à redução no número de capturas, o período baleeiro nas Ilhas Shetlands do Sul durou até 1931, ano em que foram abandonadas as actividades em Whalers Bay. Mais tarde, em 1944, ainda durante a II Guerra Mundial, os ingleses instalaram uma base científica na baía na sequência da operação secreta Tabarin. Essa base, conhecida como “Base B” foi abandonada em 1967 devido às erupções vulcânicas que começaram nesse ano. As ruínas da base inglesa ainda se encontram na baía e fazem também parte do núcleo histórico. A sensação, ao visitar a baía é estranha, e senti emoção. Estamos isolados na Antárctida; mas, neste preciso local, há cerca de 100 anos viveram várias centenas de homens ligados à actividade baleeira. Quando vagueávamos entre as ruínas dos grandes depósitos de óleo de baleia, surgiu um personagem de aspecto curioso. Um homem com uns 50 anos, magro e de expressão meio alucinada, calçando galochas e vestindo um casaco comprido castanho-avermelhado. Quando se afastou, todos concordámos que devia ser o fantasma de um baleeiro abandonado à sua sorte na ilha.

Aproveitámos para fazer algum turismo em volta das ruínas. Felizmente os turistas verdadeiros já se tinham ido embora, e podemos gozar por inteiro a solidão e o peso do local. Enquanto caminhávamos íamos fazendo sondagens no solo com a cruz e medindo temperaturas. Em poucas centenas de metros, o solo quente, com 33ºC na praia, foi arrefecendo, e rapidamente encontrámos de novo o permafrost. Interessante, o carácter pontual do forte fluxo geotérmico, que apenas limita a ocorrência do solo gelado em áreas muito restritas.

Ao fim da manhã, o tempo começou a piorar e rapidamente, se instalou um chato aguaceiro. Voltámos de zodiac ainda a tempo de almoçar. A restante parte da tarde, foi passada na base a preparar uma conferência informal para apresentação dos resultados da campanha aos colegas da base. A “charla” correu muito bem, e para quase todos se fez luz, em relação ao que de facto é o permafrost. Aquilo de que se fala, mas que raramente se vê, por ser um fenómeno subsuperficial.

11/02/2006

29. Aproveitar até ao último momento

Tivemos mais um longo dia de trabalho. Estamos a aproveitar a campanha até ao último momento para obtermos o máximo de dados possível. Como não vamos ter possibilidade de recolher dados de geofísica num prazo de pelo menos 10 meses, estamos a tentar trabalhar o máximo possível nestes últimos dias. Os 4 dias de navegação que vamos ter pela frente para atravessar o Estreito de Drake até à América do Sul, devem ser suficientes para descansar um bocado…

Pela manhã, fiz videoconferência com a RTPi e conversei com dois alunos do 4º ano do Colégio de Santa Clara da Casa Pia de Lisboa. Foi uma óptima maneira de começar o dia, e deu-me muito ânimo ver os olhos dos miúdos a brilhar, quando me faziam perguntas. Pensei várias vezes nisso ao longo do dia, e vai ser uma imagem de que não me vou esquecer. Valeu a pena! Aproveito para agradecer ao Exército Espanhol, e em particular ao Coronel Jesus Loureiro e ao Capitão Roberto Diáz, pelo incansável apoio dado a esta iniciativa. Sem eles, e sem a sua persistência para tentar estabelecer as comunicações por satélite, tal não teria sido possível.

Depois da entrevista, saímos carregados com o equipamento das sondagens geoeléctricas para um novo local que tínhamos escolhido ontem. O perfil centrou-se num fantástico patamar com várias centenas de metros de extensão, rodeado de crateras vulcânicas e de glaciares, e com fenomenais escoadas de lava, e formas de termocarso (neste caso, depressões de dimensão métrica a decamétrica, fechadas, e que se formam devido ao colapso da superfície, por fusão do solo permanentemente gelado - permafrost). Paisagem fantástica! O objectivo era obter um perfil muito longo e que permitisse atingir uma grande profundidade. Assim foi, e lançámo-nos para um perfil com 300 m de extensão, que nos permitiu explorar o substrato até 50m de profundidade. Felizmente, fomos acompanhados por três colegas de outros projectos, que nos foram ajudar. A Abi, que está a trabalhar num projecto para monitorizar a actividade sísmica da ilha; o Nestor, um companheiro argentino que trabalha no projecto com a Abi; e o Juan, que está a trabalhar num projecto de monitorização do movimento e deformação da ilha por GPS. Demorámos cerca de 1h só para instalar os eléctrodos no perfil. Entretanto, apareceu o chefe de base, que também nos veio ajudar. Lançámo-nos ao trabalho, e contando o intervalo para almoço, conseguimos terminar…às 20h! Muito obrigado a todos os colegas de campanha pela ajuda! Apesar da manhã ter tido um tempo agradável, com o sol a tentar espreitar, a tarde foi mais dura, sem sol e com vento e chuviscos.

Às 2h da manhã, quando estávamos no laboratório a discutir os dados obtidos durante o dia, apareceu um grupo que tinha estado a festejar no módulo principal da base (aqui também há sextas-feiras à noite!). Traziam bebidas e vieram desafiar-nos para cantar e participar na festa. Assim foi. Só nos deitámos às 4h.

10/02/2006

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Escoada de lava no patamar a sudoeste de Crater Lake


Juan à espera de uma leitura de um ponto GPS

28. A sesta e o puzzle

A campanha já vai longa e o cansaço acumula-se. Desde que chegámos no dia 15 de Janeiro que praticamente não parámos para descansar. Hoje é provavelmente o dia em que estou mais cansado; ao ponto de, à tarde, me ter deitado numa vertente durante uns minutos e de ter adormecido ferrado. Acordei com o Stephan a chamar-me cerca de 100m mais abaixo. Foram uns óptimos 10 minutos!

O dia foi comprido. De manhã saímos para fazer novos perfis geoeléctricos que nos permitirão compreender parte das relações entre as erupções vulcânicas da ilha, a evolução do relevo e o permafrost. É muito interessante, mas bastante complicado. A partir de meio da manhã, começou a chover e o vento estava forte. A temperatura devia ser de cerca de 3ºC. Só voltámos à base às 14h15, já ensopados. No entanto, ainda tivemos tempo para parar em frente a um corte que tinhamos visto ontem, para ver e discutir mais alguns pormenores.

Tinhamos planeado aproveitar a tarde para fazer uma pausa no trabalho de campo e organizar os dados recolhidos durante a campanha, mas ao fim da tarde, o Stephan desafiou-me para ir fazer mais umas medições da espessura da camada activa. Lá fomos, está claro! Todas as oportunidades para explorar uma nova área da ilha são de aproveitar. Fomos de moto 4, veículo que se usa muito em Deception para aceder aos locais situados ao longo da praia. Em Livingston, a moto 4 não faz mais do cerca de 200 m de distância, porque o relevo não permite deslocações maiores. A tarde foi produtiva, e encontrámos novos sítios muito interessantes, em especial no que respeita à distribuição do permafrost, e também à presença de gelo maciço no solo. Um dos grandes “problemas” com que nos debatemos, é que a cada nova saída, temos mais um monte de perguntas, que só podem ser respondidas com novas saídas e mais tempo de investigação. É um puzzle fascinante, e que nos faz dar voltas à cabeça para tentar encontrar e encaixar as peças que vamos encontrando. Enfim, trabalho típico de geomorfólogo.

09/02/2006

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Discutindo um corte com neve, depósitos piroclastos e permafrost


Atravessando um vale localizado a sudoeste da base Gabriel de Castilla

27. Aproxima-se o Outono

O tempo parece ter piorado definitivamente e aproxima-se o Outono a passos largos. Os dias soalheiros que marcaram o início da campanha em Livingston, parecem ter-se ido. É pena, porque o sol, além de saber bem, permitia fazer excelentes fotos e desfrutar muito mais do trabalho no campo. Hoje as temperaturas devem ter rondado os 2ºC, o céu esteve sempre nublado, com nuvens muito baixas (aprox. 150m) e com vento forte. Saímos de manhã para fazer um perfil de sísmica de refracção no local em que temos trabalhado próximo da base. Depois de montar o perfil de 110m, introduzir os geofones no solo, enterrar a totalidade do cabo para evitar o ruído causado pelo vento, desistimos. Demasiado ruído devido ao vento; 2 horas de trabalho para o lixo. Voltámos à base para almoçar e a meio da tarde voltámos a sair. Desta vez, dirigimo-nos para um vale que existe atrás da base, onde o Stephan e o Juanjo tinham encontrado locais interessantes no dia anterior. De facto, tinham razão! Encontrámos sítios muito interessantes do ponto de vista geomorfológico, com permafrost, neve antiga coberta por níveis de piroclastos, os quais estavam também congelados, constituindo, por isso, permafrost. Fantástico! Rapidamente escolhemos um local para fazer um perfil geoeléctrico, de modo a compreendermos como os diferentes tipos de materiais afectam a resistividade, e para assim podermos melhor analisar os perfis que efectuámos até agora, e que, para já, ainda nos levantam mais perguntas, do que nos fornecem respostas. Amanhã teremos que voltar à carga, porque a campanha está a terminar e temos algumas questões em aberto, para as quais gostaríamos de ter resposta. Vamos ver se vai ser possível.

08/02/2006

26. De serviço à mesa e limpeza, em Deception

Hoje estivemos de serviço à mesa e limpeza na base. O serviço aqui é mais pesado do que na base de Livingston. Somos 22, e isso faz a diferença. O dia ficou cortado em pedaços devido ao serviço ao pequeno-almoço, ao almoço e ao jantar, e ainda por ser necessário limpar também a base. No entanto, conseguimos arranjar tempo para trabalhar um pouco no campo no local onde temos feito medições nos dias anteriores. Da parte da manhã, dividimos a equipa em dois. Eu e o Christian estivemos de serviço. O Christian e o Juanjo foram fazer um reconhecimento dos vales por trás da base, sempre acompanhados da vara de ferro, que entretanto ficou com o nome de “a cruz”. Passaram a manhã a fazer perfis da camada activa, os quais passaram a, apropriadamente, ser designados por “cross profiles”!

Às 11h, depois de terminadas as limpezas, eu e o Christian, dedicámos cerca de 1h a responder a emails e a discutir os problemas postos pelos resultados dos dias anteriores. Dado o pouco tempo de campanha que temos pela frente, torna-se urgente estabelecer prioridades. Assim, cerca das 12h, saímos decididos a abrir um buraco no solo até ao topo do permafrost, numa área em que os perfis geoeléctricos indicavam ter características particulares, mas que tinhamos dificuldade em interpretar. Abrimos um buraco de cerca de 1m de profundidade e 1,5m de largura. Exaustos, mas conseguimos chegar ao topo do permafrost. Depois, com um escopro e um martelo, perfurámos o solo gelado, para estudarmos as suas características. As observações confirmavam aquilo que pensávamos a partir da observação do modelo de resistividade 2D. Excelente! Ficámos muito contentes!

À hora do almoço, que nesta base é às 14h30, encontrámo-nos com o Juanjo e o Christian, que chegaram com imensas novas observações e ideias muito interessantes. Quanto mais exploramos a ilha, e quanto maior é o conhecimento de que vamos dispondo, mais no apercebemos, que menos sabemos. É um sentimento que tenho tido frequentemente em várias áreas em que estudei. Felizmente, esse sentimento é normalmente superado. O acumular de dados, observações, geralmente leva a que se cheguem a conclusões e que se comece a compreender melhor como encaixam as peças do puzzle. Mas às vezes leva tempo; e aqui, faltam-nos já poucos dias de trabalho. Vir à Antárctida, não é como planear uns dias de trabalho de campo na Serra da Estrela. Depois de almoço definimos as prioridades. Nos próximos dias continuaremos a trabalhar no Cerro JB e vertente até à praia, para tentar compreender melhor as características do permafrost naquela área. Pensamos que se percebermos bem o que ali se passa, poderemos, mais facilmente compreender a distribuição do permafrost no resto da ilha.

À tarde, pelas 17h, voltamos a atacar a vertente do Cerro JB. Desta vez, novos perfis geoeléctricos, mas preparados de modo a termos uma melhor resolução em profundidade. Só terminámos pouco depois das 21h. Saímos a correr para pôr a mesa e servir o jantar, que é sempre às 21h30. Neste momento, já é tarde. Estivemos a responder a emails, e o Christian, o geofísico de serviço, esteve a analisar os dados no computador. Os resultados estavam prontos às 23h, e à 01h ainda andávamos de volta deles, com hipóteses e tentativas de interpretação. É 1h30 e o Christian acabou de me chamar para ver o céu estrelado, ocasião rara e que apenas temos pela 2ª vez na campanha. Está uma noite com cerca de -1ºC, mas vento forte. Frio! Nesta fase da campanha a noite já tem umas 4 horas...

07/02/2006

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Equipa do projecto PERMAMODEL na sala de trabalho do módulo científico da Base Gabriel de Castilla

25. A trabalhar perto da base

A manhã estava cinzenta, fria e com vento. A temperatura era de cerca de 1ºC e as nuvens baixas cobriam totalmente o céu, não deixando vislumbrar o topo da cratera. Para hoje tínhamos planeado fazer trabalho de campo no Monte Irizar, na costa ocidental da ilha a 337 m de altitude. Acabámos por mudar de planos, e por trabalhar próximo da base. Saímos por volta das 11h para fazer 2 perfis geoeléctricos, com inicio na praia e subindo ao longo das vertentes que com ela contactam. Acompanhámos os perfis com mais de 200 sondagens de espessura da camada activa com a vara que construímos anteriormente. Terminámos o trabalho de campo às 16h30 e voltámos para a base, onde almoçámos. Passámos o resto da tarde a organizar os dados no gabinete onde costumamos trabalhar. Amanhã, vou estar de serviço na base com o Christian.

06/02/2006

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Lobo Marinho


Christian e Juanjo a trabalharem num perfil geoelétrico

24. Depósitos piroclásticos

Começámos o domingo com uma reunião para redefinir o plano de trabalho face aos resultados muito interessantes obtidos ontem. Aproveitámos também, para sistematizar os resultados obtidos em Livingston e definir as prioridades em termos de artigos a preparar. À tarde, trabalhámos na preparação dos artigos até às 18h, e depois saímos para o campo. O objectivo era fazer um buraco nos depósitos piroclásticos onde ontem fizemos os perfis geoeléctricos, de forma a tentar chegar ao topo do permafrost, que segundo os resultados de ontem estaria a cerca de 60 cm de profundidade. Cavámos depressa o buraco, porque os piroclastos não consolidados são fáceis de remover, e chegámos ao topo do permafrost. Depois de analisarmos algumas amostras, percorremos um barranco, onde fizemos várias novas escavações que nos permitiram compreender a sua génese, e observar diferentes tipos de permafrost: permafrost rico-em-gelo, formado a partir da infiltração de águas de fusão e da sublimação de vapor de água; e gelo maciço resultante da cobertura de neveiros por depósitos piroclásticos. Foi um fim de tarde extremamente interessante. Voltámos à base às 20h30.

O contraste entre as condições nas duas ilhas é incrível. Em Livingston foi muito difícil encontrar fisicamente o permafrost, em especial porque estávamos na presença de substrato maciço e com pouca porosidade. Em Deception, logo no primeiro dia de trabalho de campo obtivemos resultados que nos permitiram pôr a hipótese de estar na presença de permafrost rico-em-gelo, o que conseguimos confirmar logo no dia seguinte. É óptimo, depois de tantos dias de trabalho, continuarmos a mudar de planos de dia para dia, tal é a quantidade de nova informação que vamos obtendo. O entusiasmo da equipa continua e frequentemente vivemos momentos de grande euforia com as muitas pequenas descobertas que vamos fazendo.

05/02/2006

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Base Antárctica Espanhola Gabriel de Castilla na Ilha Deception


Equipa PERMAMODEL voltando para a Zodiac na área do antigo refúgio chileno


Stephan escavando em busca de permafrost


Ele aí está! Permafrost rico em gelo intersticial num depósito piroclástico. A amostra tem cerca de 10cm de comprimento