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30. A baía dos baleeiros

O início da manhã esteve agradável, com temperaturas em torno de 3-4ºC e o sol a aparecer por entre as nuvens. Depois do pequeno-almoço saímos de zodiac para Whalers Bay, uma enseada do outro lado da caldeira. A viagem demora cerca de 20 minutos. Quando chegámos estava um barco com turistas americanos ancorado na baía e um pequeno veleiro. Mais tarde, outros colegas nossos viram os mesmos turistas a tomar banho em Pendulum Cove, onde a água da baía é aquecida pela actividade hidrotermal. Vi as fotos dos meus colegas, onde se via um grupo de umas 20 pessoas a tomar banho, uma velhinha vestida de pinguim e duas pequenas palmeira e um pinguim insuflável na praia. Surrealista e triste… ao que chega o turismo antárctico! Em Whalers Bay uma americana perguntou-me há quanto tempo estávamos na base, e quando eu lhe disse que estávamos há 1 mês, ela respondeu “ah! só…”. Não há paciência. Acho que devia estar à espera de uma história de isolamento e sofrimento para poder contar à família.

Whalers Bay ou Baía dos Baleeiros, em português, é um porto abrigado dentro da caldeira de Deception, que foi ocupado no princípio do séc. XX pela indústria baleeira. A baía é muito bonita, com uma ampla praia rodeada por crateras vulcânicas e glaciares cobertos de cinzas e piroclastos. Junto à praia a água da baía está a cerca de 60ºC e vêem-se bonitas emissões de gases e vapor. Cheira a enxofre.

A actividade baleeira na ilha iniciou-se em 1905, quando devido à redução das capturas, terminou o período de caça à foca que caracterizou a segunda metade do séc. XIX. Na década de 1910, chegaram a laborar na baía 12 navios-fábrica e 27 empresas baleeiras, e ainda hoje se encontram as ruínas dos edifícios ligados à actividade baleeira, que estão protegidos como monumentos históricos da Antárctida. Devido à redução no número de capturas, o período baleeiro nas Ilhas Shetlands do Sul durou até 1931, ano em que foram abandonadas as actividades em Whalers Bay. Mais tarde, em 1944, ainda durante a II Guerra Mundial, os ingleses instalaram uma base científica na baía na sequência da operação secreta Tabarin. Essa base, conhecida como “Base B” foi abandonada em 1967 devido às erupções vulcânicas que começaram nesse ano. As ruínas da base inglesa ainda se encontram na baía e fazem também parte do núcleo histórico. A sensação, ao visitar a baía é estranha, e senti emoção. Estamos isolados na Antárctida; mas, neste preciso local, há cerca de 100 anos viveram várias centenas de homens ligados à actividade baleeira. Quando vagueávamos entre as ruínas dos grandes depósitos de óleo de baleia, surgiu um personagem de aspecto curioso. Um homem com uns 50 anos, magro e de expressão meio alucinada, calçando galochas e vestindo um casaco comprido castanho-avermelhado. Quando se afastou, todos concordámos que devia ser o fantasma de um baleeiro abandonado à sua sorte na ilha.

Aproveitámos para fazer algum turismo em volta das ruínas. Felizmente os turistas verdadeiros já se tinham ido embora, e podemos gozar por inteiro a solidão e o peso do local. Enquanto caminhávamos íamos fazendo sondagens no solo com a cruz e medindo temperaturas. Em poucas centenas de metros, o solo quente, com 33ºC na praia, foi arrefecendo, e rapidamente encontrámos de novo o permafrost. Interessante, o carácter pontual do forte fluxo geotérmico, que apenas limita a ocorrência do solo gelado em áreas muito restritas.

Ao fim da manhã, o tempo começou a piorar e rapidamente, se instalou um chato aguaceiro. Voltámos de zodiac ainda a tempo de almoçar. A restante parte da tarde, foi passada na base a preparar uma conferência informal para apresentação dos resultados da campanha aos colegas da base. A “charla” correu muito bem, e para quase todos se fez luz, em relação ao que de facto é o permafrost. Aquilo de que se fala, mas que raramente se vê, por ser um fenómeno subsuperficial.

11/02/2006

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